Monday, February 13, 2006

Narcoditadura


Narcoditadura – A Guerra Urbana




O Brasil mudou. Saiu da ditadura para a democracia. Modernizou sua indústria. Melhorou a economia. O Estado assumiu papéis para dar educação, saúde, emprego e segurança para os cidadãos. Mas a situação do país reflete a marginalidade e a exclusão social com a qual convivemos, seja através da mídia ou no cotidiano dos morros. Segundo Percival de Souza, a sociedade organizada mostrou repulsa pela ditadura militar, mas tolera, explica e até justifica a ditadura do tráfico. A narcoditadura mata, tortura, seqüestra. É explícita. Usa armas e cocaína comprada nas fronteiras. Nos últimos cinco anos, o consumo de drogas aumentou no Brasil. Dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebride), mostram que os estudantes de ensino médio e fundamental passaram a consumir seis vezes ou mais: anfetaminas (150% a mais), maconha (325%), cocaína (700%).
As raízes do crime organizado no Brasil estão em políticas de governos passados que não imaginaram que grupos criminosos pequenos poderiam desenvolver e se tornar importantes. A criminalidade foi dominada por um lucrativo mercado de cocaína que para os carentes parece ser a única opção de sobrevivência. Um trabalho ilegal e de alto risco, onde o dinheiro vem rápido. Mas não é a pobreza que gera a violência do tráfico. Este se beneficia de um ambiente em que a população foi esquecida pelo governo e pela sociedade. Lá, os serviços públicos são precários, o acesso à justiça é difícil e quem deveria proteger age muitas vezes como aqueles a quem deveria combater. De acordo com Guaracy Mingardi, um dos diretores do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilard), “o tráfico para ser violento depende da desorganização e da ausência do Estado”.
Facções como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando e Amigos dos Amigos, são grupos que criaram um poder paralelo em um determinado território para proteger seu “negócio”. O traficante carioca Fernandinho Beira-Mar fez parte do grupo chamado Cartel Brasil. Foi o principal abastecedor de cocaína para o Rio de Janeiro e São Paulo e se tornou um dos principais fornecedores das Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (FARC). O traficante Erismar Rodrigues Moreira, o Bem-Te-Vi, morreu baleado em um conflito com policiais no dia 29 de outubro de 2005. Ele comandava a venda de drogas na favela da Rocinha, depois da morte do traficante Lulu e da prisão do seu rival, Dudu.
O traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco é considerado o mais cruel dos traficantes. É o principal líder do Comando Vermelho. Em 1993, ele humilhou e executou quatro policiais do 9° Batalhão de Polícia Militar. Foi condenado a 28 anos de prisão pelo assassinato do jornalista Tim Lopes. O jornalista foi “julgado” por traficantes por ter invadido a área deles sem permissão. Foi morto em junho de 2002, quando fazia uma reportagem sobre a exploração sexual de menores em um baile promovido por traficantes na Vila Cruzeiro, no Conjunto de Favelas do Alemão. Segundo Percival de Souza, “os traficantes transpiravam ódio, furiosos com a matéria (Feira das Drogas) que ele havia produzido para a TV Globo, mostrando os traficantes vendendo maconha e cocaína como se estivessem anunciando a venda de verduras e frutas numa feira livre”, explica.
O inquérito sobre a morte de Tim Lopes ficou com 655 páginas. Foi dividido em três volumes, onde apareciam nove indiciados (sete presos, dois mortos). Foram tomadas 32 declarações, elaborados 13 laudos periciais, providenciados 17 autos de reconhecimento e 27 autos de apreensão de objetos. Foram redigidos nove relatórios de investigação e recebidas 20 informações anônimas sobre os autores do crime. Os outros seis traficantes acusados foram condenados a 23 anos e seis meses de prisão. O último dos réus foi Ângelo Ferreira da Silva que foi julgado por homicídio triplamente qualificado, formação de quadrilha e ocultação de cadáver. Ângelo foi condenado a nove anos de prisão.
No Rio de Janeiro, há duas mortes de jornalistas sendo investigadas. O caso Mário Coelho Filho, do jornal A Verdade, assassinado em agosto de 2001 na Baixada Fluminense e o caso de Reinaldo Coutinho da Silva, do Cachoeiras Jornal, morto em agosto de 1995. Para Percival Souza, “a narcoditadura impõe explicitamente o seu estilo, não se preocupa com as repercussões, e abertura não é palavra que conste em seu dicionário político. O objetivo é um só: dinheiro e poder”, ressalta.
De acordo com o relatório do Escritório contra Drogas e Crime das Nações Unidas, o mercado de drogas movimentou cerca de 322 bilhões de dólares em 2004. Parte desse dinheiro sofre lavagem e entra no sistema financeiro. Esse dinheiro vira investimentos legais e realimenta o tráfico, que continua ativo e forte. Leonardo de Mendonça, líder do narcotráfico, investiu em fazendas de gado. Outro traficante, como Naldinho Santos, escolheu lojas de veículos, caso que envolveu Edinho, filho de Pelé.
O Brasil mudou. Mudou para a democracia. Mas quem faz a democracia somos nós, exigindo que o Estado cumpra com seus deveres, se faça presente com mudanças estruturais. Garanta dignidade e opções de vida para os que saem em busca de um lugar no mundo.
(foto - blogs.periodistadigital.com

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